Boa noite, Segunda.

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Cheguei esbaforida, como sempre, por causa dos quatro lances de escada. Tomei um banho morno. Daqueles gostosos, nem quente, nem frio, como uma noite de um verão que insiste em não acabar em São Paulo pede.

Dei uma última olhada no celular, tomei um copo d’água e fui pra cama. Mais uma vez deitei com a cabeça no travesseiro desejando que você estivesse ali
comigo.

Olhei para o escuro sozinha. A única que estava lá era a Segunda que ia embora quietinha com todo o desprezo que o mundo tem por ela e com a promessa de voltar com um humor melhor na semana que vem.

Boa noite, Segunda. – Eu disse.
Ela optou por permanecer silenciosa.

Imagem: Jenny Yu

Sobre dar conta do recado

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Então eu resolvi começar outra faculdade. Sem pensar muito, fiz inscrição para prova de bolsa do cursinho. Comecei a rever as matérias do colégio. Aprendi muito. Fiz inscrição no vestibular. Passei. Foi assim que cheguei até aqui.

Falando assim, até parece que foi simples. E foi mesmo. Não quero dizer que entrar na USP é moleza. Só digo que não sofri muito porque não parei para refletir durante o processo sobre passar mais 5 anos na faculdade. Apenas fui lá e fiz. Não me perguntei, nenhuma vez se quer, se eu dou conta do recado. Expressão que aqui quer dizer “conseguir fazer algo que parece difícil demais para você”.

Por outro lado, preferi refletir sobre como a palavra “conta” pode significar tanta coisa. Quer dizer, popularmente falando, além do dar-conta-do-recado, tem o famoso se-dar-conta, que não quer dizer nada mais, nada menos do que “perceber”. Ou o fazer-de-conta, que pode significar fingir, imaginar, mentirinha, simular ou enganar.

Neste contexto, acho que posso formar uma frase assim:
“Me dei conta que posso fazer de conta que dou conta do recado.”
Já deu certo até aqui.

PS.: Sim, entendedores entenderão que eu amo Lemony Snicket. Beijos.
*Imagem tirada por Andreia Lee no dia do trote.

O inevitável não sei

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Comecei o ano sem saber. Assim como nunca soube a minha vida inteira. Lembro que quando era mais nova meu apelido na família era “ah, não sei”. Sempre foi a resposta mais rápida e que saía da minha boca involuntariamente antes mesmo do meu cérebro processar a pergunta.

– Cadê sua mãe?
– Ah, não sei.

– O que você quer de Natal?
– Ah, não sei.

– Onde você guardou aquela blusa?
– Ah, não sei.

– Do que você quer brincar?
– Ah, não sei.

Continuo sem saber e isso nem é uma grande novidade. O novo é que uma das coisas que aprendi em 2015 foi parar de tentar descobrir. Mais do que aceitar sua falta de controle com o acaso, eu decidi apenas parar de ter medo do destino e parar de me culpar por não conseguir decifrá-lo antecipadamente. Tudo isso sem parar de planejar, ou de desejar, ou de me esforçar para que as coisas aconteçam. Não é um “deixa a vida me levar”, mas também não é ficar se corroendo pelo bendito “e se” e pelo medo da escolha errada. Sabe? Não? Nem eu. A graça é essa mesmo.

O que você vai fazer com uma faculdade de letras? Você vai sair da casa da sua mãe? Você vai viajar? O que vamos jantar?

Ah, não sei.
Ainda não consegui descobrir nem do que eu vou querer brincar.

*Imagem: Kathrin Honesta (coisalindadedeus <3)

Avance cinco casas

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Todo mundo passa por um momento ‘e agora?’. Uma imposição pessoal para saber para que lado andar num grande tabuleiro em que a vida te tomou os dados e você precisa fazer a próxima jogada com as próprias pernas.

E agora, avance cinco casas?
E agora, volte duas casas?
E agora, fique onde está por mais uma rodada?

Quando você perde as 36 combinações possíveis dos dados, não sabe mais como calcular a probabilidade de fazer a jogada certa. Daí tudo fica nublado e tudo fica claro. Nublado fica a frente, numa garoa tão densa que prega os olhos e não permite saber onde pisar. Claro fica atrás, para onde mesmo que se queira muito, não há como voltar.

Ali está o ‘e agora’ que te prende momentaneamente no mesmo quadrado. E giram a roleta. E mais gente vem jogando atrás. E começam a te empurrar. E você vai para neblina com os olhos abertos.

De olhos pregados, nada se vê mesmo, então ande suas casas e deixa o ‘e agora’ para lá.

4 motivos para se apaixonar pelos cachos

Há pouco mais ano e meio, eu parei de alisar os cabelos e estou no processo de libertação dos cachos. Agora em junho fez um ano que eu contei sobre assumir meu cabelo natural aqui no blog, lembra? E sim, ainda estou em transição entre o liso e o enrolado. Esta experiência é um misto de momento “mais terrível da vida” com “busca por mais autoconfiança”.

Eu cometi vários erros nesse tempo e ainda problematizo MUITO o meu cabelo. Estou sempre achando um novo defeito nos cachinhos e um novo motivo para fazer escova. Por isso, resolvi listar algumas razões para amar mais meu cabelo cacheado, como incentivo para eu mesma, hehe, e, quem sabe, empoderar outras pessoas que também estão passando por esse período de trevas.

  1. Descobrir minha própria identidade

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SIM! Quando comecei a transição, eu achava que isso era a maior baboseira dos blogs de cacheadas. Afinal, eu tinha minha identidade quando era alisada, não é mesmo? Mas é verdade, gente. Trazer meus cachos de volta me ensinou muito sobre mim. Na fase de transição entre o liso e o enrolado o autoconhecimento é intenso, você precisa aprender a se amar pelo que é e tentar se libertar, o tempo todo, dos padrões de beleza impostos. Cachos = liberdade. Sim, senhor!

Passar pela transição é mudar de vida. Juro.

  1. Versatilidade

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Hoje estou escovada, amanhã de cachos com volume e no dia seguinte com cachos bem definidos. Fora todos os lenços, presilhas e tiaras que NUNCA fizeram parte da minha vida quando alisada. Tudo pega, tudo funciona e tudo vai bem quando seu cabelo é cacheado. Praia, chuva, piscina e banheira nunca mais vão ser preocupação ou empecilho.

  1. Sororidade

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Pessoas vão dizer: “seu cabelo em transição está horrível, jamais vai voltar a ser bonito como antes”. Ou “você é louca, eu jamais conseguiria passar por isso”. Ou “cabelo cacheado é bonito, MAS não para mim”. Ou “cabelo cacheado dá tanto trabalho, né?”. Quando estiver precisando de apoio de verdade, segura nas mãos das amigas cacheadas e vai! Grupos do Facebook como Cacheadas em Transição ou Amigas Onduladas (são os que eu acompanho) e os blogs e canais das cacheadas estão sempre prontos para responder um desabafo, dúvida, dar dicas e compartilhar cuidados com os cachos. As cacheadas são muito unidas e sempre ajudam umas as outras.

Ter vontade de abraçar uma amiga cacheada no metrô quando percebe que ela também está em transição e falar: miga, eu entendo sua dor. Quem nunca?

  1. Conhecer o seu cabelo

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Quando passamos pela transição finalmente descobrimos como é o nosso cabelo e entendemos o que ele gosta/precisa. Hidratação para mim era um PARTO quando alisava, eu odiava ficar 30 minutos com produto no cabelo. Hoje até durmo a noite toda com óleo de coco nos cachos. A transição capilar também é aprender a amar o seu cabelo e ter vontade de cuidar dele com muito carinho.

Viu? Depois de escrever esse texto vou ali tacar água nessa escova e abraçar os meus cachos. Mentira, ainda preciso de mais incentivo, amigas cacheadas mandem orações e energia positivas, sim? o/

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Transição dramática

Hoje eu acordei com a certeza de que o presente sempre carrega mais drama que o passado. Os dilemas da adolescência visto daqui da fase jovem-adulta parecem tão mais simples que chegam a ser nostálgicos.

Esse martírio imenso da fase de transição para o adulto só é martírio porque não se sabe esperar. Porque não se sabe lidar com a instabilidade.

Mas isso lá se aprende um dia?

Não sei. Minha visão também é daqui, da fase jovem-adulta.

Só sei que os problemas parecem tão maiores porque estamos vivendo isso no agora. Daqui 5 anos vamos achar todo esse dilema um grande exagero. E novos dilemas virão.

Mas quer saber, eu gosto de não saber. Não saber o que fazer com a vida e poder testar todas as oportunidades. O que me acalma é que se nada der certo, no fim, alguma coisa sempre dá, né?

Espero que sim. A gente só precisa continuar avançando.

Mas se nada curar essa deprê, pode apelar para a Jout Jout:

Eu sou irmã dele, sabia?

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Um dos momentos mais marcantes do vídeo do meu nascimento é quando meu irmão diz firme, anunciando ao mundo como quem quer deixar registrado: “eu sou irmão dela, sabia?”.

Naquele dia na maternidade, ele já se mostrava pronto para amar e cuidar. Exatamente como precisou fazer.

Se tem uma coisa que eu aprendi é que na vida as coisas acontecem como devem ser. Eu nasci exatamente uma semana antes do meu irmão completar nove anos. Já pensou se minha mãe tivesse tido um filho em qualquer momento antes disso?

Ninguém tomaria minha lição do colégio e daria CDs do Iron Maiden para uma menina de oito anos. Ninguém ia oferecer uma mesada de R$ 10,00 se eu lesse um livro por mês. Ninguém ia me cobrir antes de dormir ou deixar fotos minhas no armário da república da faculdade.

Ninguém ia ganhar meu respeito sem precisar ordenar. Ninguém ia ganhar minha admiração sem precisar se esforçar. Ninguém ia ser o melhor homem do mundo sem precisar ser.

Ninguém seria como nós. Já que foram os quase exatos nove anos de diferença que nos fez assim.